desenho narigudas e cabeçudos
24.9.08

eu a gemer de dores.

 

- faça força

- grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

- mais força... só quando for uma contracção...

- grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

- não... não... só quando for uma contracção...

 

mas eu não sei o que é uma contracção, a minha dor era constante, tentei explicar mas eu acho que naquela altura me julgavam uma histérica, apesar de eu nem tugir nem mugir.

 

eu só gemia.

muito baixinho, para não incomodar (tenho esta mania absurda de nunca querer incomodar).

 

e assim passavam as horas e nada.

criança ainda muito em cima.

dilatação pouca.

 

e o maldito clíster a fazer efeito de cada vez que eu fazia força.

e como se isso não bastasse estava para vir o momento "MASSA"!

 

com tantas dores comecei a ficar mal disposta.

a sentir náuseas.

a transpirar.

eu sabia que ía vomitar.

eu tentei avisar.

mas ninguém quis ouvir.

 

- ai amooooooooooooor não sujes os lençóis que acabei de os mudaaaaaaaaaaar

- eu estou mal disposta... eu vouuuuuuuuuu voooooooooomitar

- espera aí... espera...

( eu agarrada pela auxiliar que tentava desesperadamente salvar os lençóis começo a ter vómitos)

- ela vai vomitar...

- ai...

 

bruuuuuuuuuulp

( eu não vomito com classe, nisso sou do mais brega que existe, vomitei pouco na vida, mas quando vomito "rodo a baiana", sai tudo às golfadas)

bem em cima da auxiliar, que gritava e me sacudia e me agarrava e me limpava...

 

(comentários na sala)

- ah comeu massa!

- não comi não, nãooooooooo cooooooooomiiiiiiiiiii nãooooooooooo!!!!!

-ai comeste comeste estamos todos a ver que sim!!!

(todos: auxiliar, G., irmã, para aí 3 estagiários, obstetra, outra auxiliar, sra enfermeira)

- não comi

- comeste

- nãoooooooooooo

 

(de repente lembro-me que sim, que realmente comi um resto de ontem, na minha outra vida)

 

- desculpem-me comiiiiiiiiiiii, é verdade que comiiiiiiiiiiiiii!

(sempre fui assim demasiado honesta, até num momento muito estúpido)

- e tinhaaaaaaaa cogumelos!!!

- vês?

 

já não via nada.

já era demais.

a R. já estava a sofrer na minha barriga.

a obstetra decidiu que o melhor seria um parto com ferros.

 

e eu tive que subir ou descer (ainda hoje o G. me disse para onde me levaram e eu não tenho noção) para ir para uma sala de partos diferente.

 

o G. já não me pode acompanhar, ficou do lado de fora (pelo menos estava logo ali).

a minha irmã esteve sempre comigo (é a pediatra da R. e trabalha na maternidade pelo que podia assistir).

dos 3 estagiários, 1 pode assistir (tiraram à sorte, conforme o G. me contou), para eles era um momento muito interessante para sua formação.

 

o meu parto foi muito complicado e doloroso.

a R. teve que ser tirada com os ferros (umas coisas gigantes com aspecto aterrorizador)

a dor durou até a tirarem.

 

depois foi um alívio tão grande.

passou tudo.

 

a R. nasceu no dia 25 às 00:52 (durante algum tempo fez-me imensa confusão e confundia o dia do seu nascimento, achando sempre que tinha sido no dia 24)

 

só vi a R. de esguelha.

 

o G., a F. (minha sobrinha que conseguiu entrar para dentro da maternidade) e a minha irmã foram os primeiros a vê-la e a pegar-lhe.

 

depois de ser cosida e tratada, puseram a R. entre as minhas pernas embrulhada numa mantinha e levaram-nos para o recobro.

 

deixaram-me sozinha num corredor e levaram-na para o berçário.

deram-me uma sandes e um pacote de leite.

 

descansei um bocadinho.

e comecei a ouvir chorar um bébé.

era a R.

troxeram-na para junto de mim.

calou-se e adormeceu.

só lhe conseguia ver a ponta do nariz e a testa.

tinha medo de lhe mexer, estava quentinha e tão quietinha.

só no outro dia a vi toda.

 

e assim começou a minha maior aventura.

 

 

 

Por cacau com pimenta rosa, às 19:53  ver comentários (5) comentar

as dores eram insuportáveis.

estive deitada, sempre deitada, com aquela maldita máscara de oxigénio na cara.

à minha volta um sem fim de acontecimentos.

 

o clíster começou a fazer efeito de cada vez que eu fazia força, a minha irmã ria-se e limpava... como se paga isto?

o G. de óculos escuros na mão (para não os perder, tem esta fixação com todos os seus pertences, esteja em que situação estiver, tipo criança de gelado na mão cai mas o gelado nunca) a portar-se à altura (imaginámos sempre, ou eu imaginei sempre que lhe dava uma nervosite aguda, mas não, foi impecável.

 

eu a gemer

 

auxiliares que me mudaram os lençóis não sei quantas vezes.

obstetras de passagem a tomar conta da ocorrência.

GRUPOS DE ESTAGIÁRIOS À PORTA DA BOX A VER TUDO.

 

eu a gemer

 

e momentos únicos.

o momento da "massa" vai ser para sempre recordado.

 

eu a gemer.

 

(continua)

Por cacau com pimenta rosa, às 19:45  comentar

depois dos preliminares, que neste caso só dão chatices, fui para a minha box.

pois, isto de chamarem box dá assim um certo ar de curral, mas até não era nada má e tinha uma janela e estava limpa (claro que eu imagino sempre que está tudo sujo).

 

a minha irmã e o G. já estavam comigo e eu ainda me ria e conversava...

mas depois começou a doer, a apertar, a contrair e eu comecei a deixar de ter posição porque as dores que até agora eram só uma moínha passaram a ser uma dor constante que começou por volta das 19h e ainda íam durar mais umas quantas horas.

 

levei a primeira dose de epidural e acreditei mesmo que ía ser fácil e que agora as dores íam acabar ou pelo menos diminuirem de intensidade.

mas não.

o efeito da epidural durou cerca de 15 minutos (sem exagero).

por esta altura o G. e a minha irmã (que me tinha passado um telemóvel) tinham ido comer qualquer coisa e eu estava sozinha.

 

a dor foi absolutamente insuportável, doeu-me a toda a volta do perímetro abdominal (disseram-me depois que seria como uma cólica renal (é isto?) durante cerca de 5 horas, um desespero.

implorei outra dose de epidural, deram-ma e não fez efeito.

tive que aguentar, sem fitas, mas não fui capaz de não gemer um bocadinho, apesar de ainda lúcida e consciente que tinha prometido a mim mesma não fazer figuras.

 

o meu parto tem um nome específico, a complicação que se deu durante o processo é um caso bicudo, mas eu ainda não me tinha apercebido.

 

(continua)

Por cacau com pimenta rosa, às 19:32  ver comentários (1) comentar

entrei.

lá esperei pela ginecologista.

examinou.

a minha irmã chega e trocam impressões.

tudo bem encaminhado.

se calhar ainda nasce hoje (dia 24).

 

- e agora?

- agora vais-te preparar...

 

deram-me 1 camisa (que eu já sabia horrível) para eu vestir e ficar com o rabo ao léu, e os chinelos de papel ou coisa que o valha.

deram-me um clíster e indicaram-me a casa de banho.

deram-me um questionário para eu preencher.

 

vesti a camisa e calcei os chinelos.

fui a uma casa de banho, cheia de caixotes (era também arrecadação) e dei uso ao clíster, mas como foi o primeiro de toda a minha vida (pelo menos manuseado por mim) não fiquei para ali à espera que fizesse efeito, o que se veio revelar uma grande asneira da minha parte e uma memória futura para mim.

o questionário já estava capaz de o comer pela altura em que o comecei a preencher...

 

-fuma? não (umas belas bafuradas sabiam bem, se calhar até daqueles para rir); bebe? não (agora um copo de vinho era bom para aligeirar a tensão); e mais uma série de perguntas que para o fim só me apetecia gritar e se fossem à m....a mais o questionáriozinho?

 

(continua)

 

 

Por cacau com pimenta rosa, às 19:21  comentar

cheguei à maternidade sem grandes sobressaltos, até porque para além das águas já terem rebentado, ainda não sentia contracções.

 

chegar à maternidade, ir direita para a sala de espera e ser atendida por aquelas gentis almas (um bocadinho lentinhas) que lá trabalham é sempre uma aventura, mas fazer isso tudo sabendo que a criança está para nascer perde algum do encanto (se é que isso é possivel).

 

- boa tarde, as águas já rebentaram...

- o seu cartão? aguarde que a chamem...blá, blá, blá...

 

encostei-me (para quem conhece) logo ao pé da porta para entrar "lá para dentro", para lá daquela porta guardada por "uma senhora gorda que grita muito e tem cara de má e que naquela altura dizia que ía mas era trabalhar (leia-se "chinelar") para o novíssimo Hospital dos Lusíadas (será que conseguiu?)"

 

já não podia estar sentada porque a barriga, agora menor em tamanho, estava a incomodar-me.

a sala de espera das urgências da Maternidade Alfredo da Costa pode ser tudo menos monótona, mas eu já nem disso queria saber.

agora já estava por minha conta, o G. tinha ido estacionar e a minha irmã ainda não tinha chegado.

por fim lá me chamaram, e eu ENTREI!

 

(continua)

Por cacau com pimenta rosa, às 19:06  comentar

eu já estava em trabalho de parto.

no dia em que fiz exactamente 40 semanas de gravidez.

 

foi numa segunda feira.

andei a manhã toda para lá e para cá, nem saí de casa.

 

almocei e fui para a minha cama ler um livro.

estive ao telefone com uma amiga, comentámos e rimos de que nunca mais a criança nascia ou dava sinais de o querer fazer.

 

quando me preparava para uma sesta, já com o meu gato K. aninhado junto a mim, dou uma volta e oiço um som parecido com TRAAAC  dentro da minha barriga... a mesma sensação de algo a partir...

 

percebi logo o que tinha sido, as águas tinham acabado de rebentar.

ups... ía começar a maior aventura da minha vida.

 

com muita calma, lá fui sentar-me no bidé para analisar que tipo de liquido começava agora a deslizar por mim abaixo.

incolor, sem cheiro, estava comprovado.

esperei que escorresse todo.

telefonei ao G.

(e à minha mãe, e à minha irmã)

comecei a preparar-me dando uso a todos os conselhos de amigas que tinham passado pelo mesmo ou tentando não repetir erros (às vezes dou ouvidos a quem me dá sábios conselhos).

vesti (e isto é um conselho) umas calças, uma t-shirt, soutien e cuecas e, porque era verão, umas havaianas, mais nada.

peguei na bolsa (pequena) onde tinha arrumado só os documentos necessários e os meus exames e análises efectuados durante a gravidez.

peguei num saco de plástico e numa toalha (MUITO IMPORTANTE) para não sujar (não aconteceu, mas nunca se sabe) o banco do carro a caminho da maternidade.

e esperei pelo G.

que chegou nas suas calmas, que me diz que vai só mudar de roupa e que ainda vai à casa de banho (OH SENHORES EU DE ÁGUAS REBENTADAS E SUA EXCELÊNCIA COM VONTADES DE ÚLTIMA HORA!!!! ainda hoje me diz que tinha mesmo que ser porque ía estar sabe-se lá quantas horas sem poder ir (nota: o G. não vai a qualquer casa de banho, muito menos a casas de banho sem bidé e condições minimas, é capaz de fazer kms... enfim).

e eu à espera do G. sentadinha.

 

e assim por volta da mesma hora a que escrevo este post com a diferença de 1 ano, lá fomos a caminho da Maternidade Alfredo da Costa.

 

(continua)

Por cacau com pimenta rosa, às 16:16  ver comentários (2) comentar

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